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Homens da imprensa

Em Maringá, duas pessoas ditam a regra do jogo quando o assunto é comunicação. Frank Silva e Verdelírio Barbosa são verdadeiros patrimônios vivos da nossa história, figuras que quase aos 80 anos permanecem fazendo o que sabem de melhor: comunicar e revolucionar.


TEXTO VINÍCIUS LIMA FOTOS JOÃO PAULO SANTOS

Dois nomes, duas personalidades e uma história em comum: Franklin Silva e Verdelírio Barbosa foram e continuam sendo os principais personagens da imprensa que fez de Maringá o que ela é hoje. Pelas páginas históricas de seus jornais diários passaram não apenas notícias, mas verdadeiramente a concretização de novos negócios, a solidez no comércio local, a expansão das atividades industriais, o desenvolvimento de novos empregos e inúmeras campanhas sociais que mudaram os traços e formas da bela Maringá.


Movidos pela intenção nobre, porém nada fácil, de compreender o alcance da influência destes dois homens, a redação da WIT os convidou para um café na Marco's Boutique de Pão da XV em uma tarde de terça-feira. Por ser uma padaria bem frequentada pelo meio empresarial, não passava 10 minutos sem que alguém os abordasse em nossa mesa para cumprimentar o “Verde” e o “Frank”, com uma nota de respeito – e quase devoção, não pude deixar de notar – por estes dois personagens que afinal têm 78 (Verdelírio) e 77 (Frank) anos de idade.

Suas histórias se entrelaçam desde o princípio. Verdelírio colocou seus pés em Maringá quando tinha 10 anos de idade, e Frank chegou na pioneira Maringá aos 11 anos, em 1953. Cada um com um início mais que modesto, e muita perseverança envolvida.


Em 1957, aos 15 anos de idade, Frank já trabalhava como vendedor de café da propriedade do seu pai, porém procurava um novo emprego na área administrativa, pois ele queria colocar em prática o que havia aprendido no curso de datilografia. Essa intenção o levou até o escritório da Rádio Cultura, que o aceitou em seu primeiro emprego. Naquela época Frank já deveria ter a mesma voz profunda que tem hoje, pois ele explica que não tardou muito para o então proprietário da rádio, Sr. Joaquim Dutra, o convidar para fazer um teste de locução. Em resposta, o pequeno Frank pergunta: “o que é locução?”.


Frank foi o primeiro repórter a dar um furo de reportagem no acidente envolvendo um avião da esquadrilha da fumaça naquele mesmo ano, em 1957, que o colocou nos anais da história da imprensa maringaense. Após este brilhante início, Frank passou também pelas emissoras Rádio Jornal, Rádio Difusora, TV Cultura de Maringá, TV Coroado de Londrina, foi colunista n’O Jornal e escreveu na Folha do Norte do Paraná desde a sua primeira edição até o momento em que O Diário do Norte do Paraná iniciou suas operações em 29 de junho de 1977. Jornal que mais tarde se tornou de sua propriedade.


Se engana quem pensa que a sorte sorriu para o Frank e o colocou no lugar certo e na hora certa. Ao contrário, ele aprendeu desde cedo a ser senhor do seu próprio destino e a criar suas próprias oportunidades. Um exemplo disso foi a forma com que ele ingressou na TV Coroado de Londrina. Ele havia se mudado para aquela cidade para fazer faculdade de Direito (seu registro na OAB segue ativo até hoje) e surgiu o desejo de criar ali seu programa de televisão. Ele comprou 15 minutos da grade da emissora todas as quintas-feira em um horário após as 23h para que desse tempo de ele sair da faculdade e ir apresentar seu programa, que tinha caráter social. Foi assim durante os 4 anos de duração do curso de Direito.


Nessa época Frank também desenvolveu um método inovador de fazer cobertura. Ele percebeu que havia um mecanismo chamado Tambor que era utilizado para gerar caracteres estáticos na tela, como vinhetas e legendas. Ele testou e viu que, com uma imagem negativa era possível gerar na tela imagens positivas que se assemelham ao que chamados hoje de slides. Eureca! Frank foi o primeiro repórter a ir a campo sozinho, sem cinegrafista e todo aquele arsenal que precisamos ainda hoje para fazer uma cobertura televisiva. Munido apenas de gravador e uma câmera fotográfica ele movimentou toda a cena social londrinense, e fez coberturas importantes até mesmo para o então governador Paulo Pimentel.


Verdelírio também é do tipo que faz sua própria sorte. Ele já tinha 50 anos de idade quando decidiu empreender e criar um novo jornal. O Jornal do Povo, como ainda hoje é chamado, tem 28 anos de história. Tudo começou em 1991 quando Verdelírio arrendou os equipamentos de Ramirez Pozza, proprietário do recém extinto O Jornal, um impresso diário que precisou encerrar suas operações ao entrar forte na campanha política que acabou o deixando desgastado após o resultado das eleições.


A relação de Verdelírio com a comunicação, porém, começou muito antes, em 1962 no jornal Diário de Maringá, de João Antônio Correa Jr., conhecido como Zitão. Ele também passou pela Rádio Cultura, Rádio Atalaia, Rádio Jornal, O Jornal, Tribuna do Norte, TV Band e até n’O Diário do Norte do Paraná de Frank. “A dificuldade te torna criativo”, explicou Verdelírio, ao justificar o porquê de abrir seu próprio jornal em resposta à dificuldade de ser empregado pelo mercado editorial local.


TECENDO A HISTÓRIA DE MARINGÁ


“Não é a comunicação que cresce com a cidade, é a cidade que cresce com a comunicação. A imprensa valoriza a cidade e ao valorizar a cidade você valoriza as pessoas”, é a opinião de Verdelírio Barbosa. Basta fazer uma pequena retrospectiva para perceber que há muita verdade nessas palavras. Muitas conquistas da cidade e para a cidade foram mérito de campanhas da imprensa local, sem nenhum cunho partidário.


Dentre os exemplos destacamos: a construção da Rodovia do Café ligando o noroeste do Paraná ao litoral; a pavimentação dos municípios vizinhos na época do governo Jaime Cana; a implantação dos edifícios da Justiça Federal e da Justiça do Trabalho em Maringá, que inclusive foram edificados pelas mãos do povo e com fundo de doação de iniciativas privadas, como a do já falecido Amorim Moleirinho.


Destacamos também a campanha pela recuperação do Horto Florestal que durou mais de 10 anos no Jornal de Frank e que está na pauta do legislativo municipal até hoje. Passou também por nossas páginas a figura polêmica, porém revolucionária, do arcebispo Dom Jaime Luis Coelho, colunista n’O Diário e idealizador de movimentos como aquele que pretendia transformar o norte do Paraná em um Estado independente, o Paranapanema.


Além das causas humanitárias, um setor que muito movimentou o impresso em Maringá foi o das colunas sociais. Vedelírio esclarece que “ninguém lembra quais foram os bons jornalistas que escreveram sobre economia, política... mas os nomes consagrados do colunismo social todos se lembram”. Como é o caso de Ademar Schiavoni, Divanir Braz Palma, Pedro Granado Martines e, claro, Frank Silva.


O MERCADO EDITORIAL NO FUTURO


“Eu creio que o jornal impresso ainda terá vida longa, para mais de 50 anos”. Ora, o principal contra argumento para esta opinião de Frank é o advento da era da digitalização. Porém ele e Verdelírio acreditam que a tecnologia não veio para atrapalhar a imprensa, ela veio para ajudar. Verdelírio explica que antigamente era necessário até 3 pessoas em diferentes regiões para se fazer uma única pesquisa. O jornal do Frank, por exemplo, já teve em média 300 funcionários trabalhando simultaneamente. Hoje em dia as redações podem ser mais enxutas e tudo está ao acesso de um clique. “Hoje é muito mais fácil fazer comunicação, porque eu resolvo quase tudo com apenas uma pessoa conectada à internet”, explica Verdelírio.


Se há dificuldade hoje no mercado editorial é em termos de comercialização, mas até mesmo esse fator, segundo a opinião unânime de ambos, não está correlacionado à predileção dos empresários pelos anúncios em redes sociais, e sim à crise econômica que o país enfrenta há mais de duas décadas e que obriga o empresariado a usar mídias baratas e até gratuitas. “Se você analisar o desempenho do país em termos econômicos vai perceber que pouquíssimas empresas criadas nos últimos 20 anos estão hoje no mercado, quem permaneceu foram as empresas grandes que aprenderam a readaptar seus processos para reduzir custos e sobreviver em um país em crise”, conta Verdelírio.


Esta lógica não só faz sentido como está alinhada com um movimento contemporâneo de regionalização da mídia impressa em resposta à globalização. A lógica é simples: fatos globais são copiados e replicados massivamente, por isso chegam ao conhecimento geral rapidamente por vias digitais, porém fatos locais têm seu lastro e poder de alcance reduzidos, é por isso que localmente a mídia impressa ainda tem relevância e importância.


A palavra de ordem é adaptar e renovar. O jornal The New York Times, um dos maiores do mundo, publicou recentemente o lançamento de duas revistas impressas, a “T: The New York Times Style Magazine” e a “New York Times Magazine”, bem como a extinção da sessão Casa e Automóveis no jornal impresso. O diretor executivo do jornal, Mark Thompson, chama isso de “ilhas de crescimento para o jornal impresso”. Ele não nega o poder do digital e investe pesado na versão online do jornal, que hoje tem 3,4 milhões de assinantes digitais. A meta do jornal é em 2025 ter 10 milhões de assinantes digitais, sempre contanto com os nichos locais para propagação de impressos cada vez mais regionalizados: “o impresso seguirá importante”, conta Thompson.


Sobre este assunto, Frank é taxativo: “quem quer saber sobre Maringá não vai procurar na Folha de São Paulo”. E Verdelírio completa: “mesmo as gerações mais novas, quando ficam mais velhas e desaceleram, voltam a dar mais valor ao toque do papel e à qualidade de informação que só existe em bons jornais. Não é à toa que jornais como O Jornal do Comércio no Recife cresce, O Estadão cresce e muitos outros exemplos”.


Se pensarmos não apenas em jornal e expandirmos este assunto para demais canais de comunicação, perceberemos que as pessoas ainda não mudaram suas rotinas de ir e vir, e os outdoors continuam em seu caminho de casa para o trabalho, do trabalho para a academia... O rádio continua sendo um ótimo canal para quem tem uma rotina mega acelerada e só pode usar o momento do trânsito para se colocar à par dos acontecimentos locais e globais. As revistas continuam sendo um espaço de curadoria para o melhor que existe em todas as áreas, além de ser um veículo que proporciona uma forma muito específica de entretenimento: a concentração plena e a imersão em assuntos abordados com profundidade teórica. E as redes sociais, que são bem-vindas, serão sempre o símbolo maior da democratização da voz do povo. Se antes a voz do povo era a pichação nas ruas, hoje ela está nos canais sociais. “Não adianta a imprensa mostrar um retrato que não existe, o povo descobre e denuncia. Hoje existe uma voz maior que a imprensa, é a voz do povo”, frisa Verdelírio.


Comendador Frank Silva e Verdelírio Barbosa nos surpreendeu com sua vivacidade e força, quase aos 80 anos de idade. Homens de percepção rápida e seguros na fala e no olhar. Se assim não fosse, eles não teriam, juntos, feito tanta história. Somos gratos a eles e à sua capacidade interminável de se reinventar e de ser um exemplo de vida. Com o fim das operações do jornal de Frank após 45 anos, hoje ele é colunista no jornal de Verdelírio, uma transição que denota a grandeza espiritual e a maturidade intelectual destes homens a quem muito devemos. “Preciso recomeçar, de novo, mas tenho uma vantagem agora: 77 anos de experiência”, conclui Frank.




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