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Guilherme Torres

“Às vezes atribuímos a forma que vivemos a características nossas, mas na verdade são características espaciais”


TEXTO VINÍCIUS LIMA FOTOS DÉBORA MAGRI

Natural de Cianorte, radicado em Londrina e hoje um cidadão do mundo. O arquiteto Guilherme Torres conseguiu sua projeção na cena internacional não apenas por sua arquitetura, mas também pelo design de móveis arrojados. Ele esteve aqui em Maringá a convite da loja Agave Casa para o lançamento e sessão de autógrafos da sua trilogia de livros que são um registro histórico do seu trabalho nos últimos 15 anos. O evento reuniu 150 profissionais em um Brunch delicioso no cenário inebriante dessa loja de decoração que já caiu no gosto de arquitetos, designers e decoradores locais. Para aproveitar sua passagem pela cidade verde (onde mora seus pais) Guilherme Torres também palestrou para um grupo de estudantes de arquitetura e, claro, deu uma entrevista exclusiva para a WIT.


[WIT] A sua trilogia é muito mais do que seu portfólio, ela é intrigante desde a capa. O que essas páginas falam sobre você e seu trabalho?


[GT] Eu queria uma maneira de expressar como me sinto, como se tivesse feito uma terapia intensiva. Olhar meu próprio trabalho com uma retrospectiva de 15 anos e reinterpretar. Eu tento decodificar as coisas. Eu percebi que durante um bom tempo eu persegui ideias que funcionaram para mim, naquele momento. O tempo em arquitetura é muito longo. O tempo de projetar, construir e registrar às vezes leva 3 a 5 anos em um mesmo projeto. Quando eu terminei o livro percebi que o leitor vai ter me conhecido, mas não me conhecer. Eu sinto que aquelas obras, embora sejam um registro histórico, não me representam mais. Hoje eu olho para elas com tanto distanciamento que sinto como se fosse outra pessoa que as tivesse projetado, justamente porque estou em outra fase. Eu vejo uma linha evolutiva nos trabalhos que tem no livro, mas o que estou fazendo agora é um salto quântico.


[WIT] Afinal, que vibe é essa que a arquitetura Guilherme Torres vive hoje?


[GT] O tempo. Talvez em virtude da minha idade e o fato de já ter vivido um bom tempo me faz ter uma percepção diferente sobre este tempo e o que eu quero dele. Eu quero tudo mais rápido, e mais simples. O mundo está mais rápido e acredito que a arquitetura tem que acompanhar isso. Eu decidi romper com algumas coisas minhas, como o concreto. A arquitetura Guilherme Torres está na fase da madeira CLT (cross-laminated timber), uma tecnologia que permite construir até mesmo prédios inteiros de madeira, com a vantagem de ser uma técnica construtiva rápida e de fontes de reflorestamento que se renovam em 5 anos.


[WIT] O público tem aceitado facilmente a CLT?


[GT] Não! [risos] Todos têm medo do desconhecido. Por causa da CLT eu me sinto mais uma vez tendo que defender meus projetos e lutar para usar novas tecnologias. Estou me sentindo com 20 anos de novo. Mas o fator globalização me ajuda nesse sentido. Estou construindo uma casa na Suécia. O Brasil ainda tem uma imagem quando se trata de arquitetura e estilo de vida, as pessoas imaginam que tenha uma bossa... Minhas obras representam tanto um trabalho globalizado como um lifestyle brasileiro.


[WIT] Quais formas de morar você aponta para o futuro?


[GT] Eu acredito cada vez mais que as coisas devam ser simples. A simplificação é a palavra da minha vida. Eu sei que a minha próxima casa deve ser a metade da que eu moro atualmente. Eu percebo nessa geração dos milênios a tendência por não ter casa ou ter um micro espaço compartilhado. Eu venho de uma cultura em que todo mundo tem carro, mas eu vendi o meu há dois anos e não consigo me imaginar tendo carro de novo. Eu percebi o quanto ele me dava de trabalho e o quanto me faltava de contrapartida. Isso tem a ver com tempo e também com tecnologia. Eu amo tecnologia e o conceito de nuvem, acho que qualquer hora minha vida vai virar uma nuvem.


[WIT] Que tipo de pessoa almeja uma casa assinada por você? Quem é seu cliente?


[GT] Eu não acredito que uma pessoa vá me contratar por uma questão de estética e combinação. Eu, como arquiteto, faço uma análise comportamental e de valores. O arquiteto tem que sugerir um estilo de vida, porque quando uma pessoa muda para uma nova casa ela muda também o jeito de viver. Muitas vezes atribuímos a forma que vivemos a características nossas, mas na verdade são características espaciais. O espaço influencia 100% na forma de vivermos. Eu faço casas para transformar o modus vivendi de pessoas. O arquiteto tem que ser um pensador, um crítico.


[WIT] Nesse processo você leva em consideração as predileções estéticas desse morador?


[GT] Sempre me perguntam como funciona a parte de contato com o cliente e o briefing. Obviamente eu faço uma entrevista e a pessoa começa fazendo um descritivo muito racional do que ela quer. Um deles até me perguntou “você não vai anotar?”. O grande segredo é entender tudo o que a pessoa não falou. Cada vez mais as pessoas querem ser surpreendidas, elas não pedem, mas querem. Todos querem experimentar algo novo, ter uma experiência nova.


[WIT] Maringá forma quase 500 arquitetos por ano. O que esse profissional deve fazer para se destacar?


[GT] As universidades brasileiras seguem um modelo de 50 anos atrás, quando existia 20 profissões no mundo pra você escolher. A faculdade deve ser um farol para você pensar o que vai fazer, um espaço para encontrar uma área de afinidade. Não o fim em si. Se eu trabalhasse apenas com arquitetura eu morreria de tédio. Eu sou designer. Eu adoro comunicação visual. Semana passada eu fiz a cenografia de um super casamento em Trancoso. Enfim, eu sou muito curioso para tudo e tem muitas áreas correlatas à estética que me interessam. Uma coisa é você simplesmente se interessar e a outra é trabalhar. Eu trabalho com todas elas.




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