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Comer com todos os sentidos

Alimentação é ciclicidade. O que você tem comido hoje dirá sobre você amanhã?


TEXTO KAREN FACCIN FOTO DIVULGAÇÃO

Na varanda de casa tenho uma Árvore da Felicidade, herdada da minha mãe. Vou admitir que não acho ela o exemplar mais ornamental das espécies do meu amontoado de vasos, mas ela é a mais importante se levada ao pé da letra. Como jornalista e entusiasta do poder que as palavras têm, acho auspicioso ter uma planta que leva o nome disso que tanto buscamos, a tal felicidade. Se comparada à Pata de Elefante, cactos, suculentas e Espadas de São Jorge que estão dividindo o mesmo metro quadrado, ela também é a mais sensível de todas. Se o clima não tá legal, se tem uma praga na área, mais que depressa os sintomas estão estampados em suas folhas delicadas. Poderia soar como hipérbole, mas alimentar a felicidade requer seus cuidados.


Ultimamente tenho ficado ainda mais em casa e aproveitado para fazer as refeições na varanda para dar uma espairecida na companhia das plantas, sentir na pele os dias lindos que têm feito e respirar a brisa fresca que vem do Parque do Ingá. Dia desses, entre uma garfada de abobrinha e outra de beringela, contemplei a Árvore da Felicidade redundantemente feliz. Folhas verdinhas e viçosas, novos brotinhos surgindo. Me dei por conta que uns dias antes havia regado ela pela primeira vez com biofertilizante – o líquido produzido a partir do processo de compostagem. Uma das mudanças que consegui colocar em prática na quarentena foi começar a usar a composteira (salve, pai!) para decompor os resíduos da minha comida, gerir meu próprio lixo para não jogá-lo fora, afinal, não existe fora.


Mas pra quem ouve assim falar, parece algo tão banal. É lixo, enfim. Certo? Não tem certo, nem errado. Mas a partir do meu olhar, o ato de comer é, de uma certa forma, segurar o mundo entre os dentes, todos os dias. Do café da manhã ao jantar, tenho o poder de escolher o que quero para mim e para o mundo. Não, não tenho a pretensão de sozinha reverter o aquecimento global ou erradicar com a fome, mas acredito que as transformações moram nas miudezas do cotidiano: em valorizar os produtores que cultivam os alimentos que eu compro na feira de orgânicos no domingo de manhã, na sensação que tenho ao sentir o aroma de cada ingrediente, na playlist que está rolando no Spotify enquanto eu cozinho, na intenção que coloco ao mexer a panela e preparar a mesa, no clima da conversa que enreda a refeição, até a forma com que faço o descarte dos resíduos. E aí volto outra vez ao assunto da dita composteira, porque o ato de comer em si, é cíclico e tem o poder de gerar ainda mais vida e bem-estar, seja para a Árvore da Felicidade, para mim, e pra tudo isso que me cerca e do qual faço parte.


Me permitir reconhecer essa cadeia tão linda e complexa que envolve a alimentação para mim foi libertador. Porque comer, dia após dia, sem conectar todos esses pontos, é como tampar o nariz ao engolir, você não sente o gosto do todo. Comer uma fruta fora da sazonalidade, que foi cultivada com excesso de agrotóxicos e transportada por milhares de quilômetros, é mesmo uma opção de lanche saudável? Saborear um pedaço de um animal que foi explorado, sentiu medo, estresse e dor, é algo que pode nutrir meu corpo com vitalidade? Pra mim, comer bem não tem receita e nem está à venda em uma prateleira. Envolve mais que paladar, visão, olfato, tato, audição. É um estado de espírito, é sinônimo de autocuidado. Aquece o coração, arranca sorrisos, cura feridas. É um suco verde pela manhã e um bolo de vó no final da tarde. É congelar marmita fit para a semana e fazer brigadeiro de panela no domingo. É contar calorias, mas também os impactos ambientais para produzir meu alimento. É ter uma horta no quintal e pedir delivery de pizza de vez em quando. Mas comer bem, acima de tudo, é comer com presença. Porque quando estou presente, sacio minha verdadeira natureza, não só de comida, mas de significados sobre o que essa comida diz sobre mim, sobre as minhas emoções, sobre a minha saúde, sobre minhas prioridades, sobre meu jeito de levar a vida, sobre meus valores e crenças, sobre o que eu quero para o meu futuro e para o futuro do planeta.



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