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Nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?

POR ED BATISTA


Antes de começar a falar sobre o tema, eu fiz uma pesquisa no google e a maior parte dos assuntos relacionados estavam ligados ao contexto Pais e Filhos, ou seja, a importância da presença dos pais na vida dos filhos. Embora seja uma pauta importante, hoje estou aqui para falar sobre esse assunto a partir da perspectiva de um filho.


A princípio pode não fazer muito sentido descobrir a importância de restabelecer essa conexão e o relacionamento com os pais, que a princípio já existe em nível familiar e sanguíneo, mas falo e defendo a conexão emocional com os pais, um tema difícil para muitas pessoas, uma vez que a maioria de nós tende a seguir um caminho oposto, de distanciamento e até mesmo de fuga.


Existe uma resistência em admitir que a fuga existe, contudo, posso dizer que é possível compreender essa fuga. Nela há dores e traumas que foram gerados em nossa infância, quando estávamos formando o nosso intelecto (ou ego, termo mais difundido pelo conhecimento em espiritualidade). Durante a infância o ego passa por uma fase de formação e, na adolescência, de transformações. Os conjuntos de dores e traumas adquiridos nessa fase de vida passam a ser, então, a forma pela qual uma pessoa se relaciona com outras. Em outras palavras, a forma como eu estou agindo no mundo é um reflexo do que existe dentro, na minha mente e no meu campo emocional.


Toda essa estrutura emocional baseada em dores e traumas passam a guiar a forma como o relacionamento é estabelecido na vida adulta, e sempre que uma situação é gatilho emocional, a mente toma o caminho da fuga. Evitar ter que ouvir a voz de um pai, de uma mãe, lidar com seus costumes e ideais, são apenas alguns exemplos.


Existe uma lista de problemas que me fizeram trilhar o caminho da fuga e eu passei 35 anos da minha vida fugindo dos meus pais, 35 anos onde eu não aceitava a forma como eles são, enxergando e julgando apenas os seus defeitos.

Ainda trabalhando no mercado publicitário, mas iniciando meus estudos na espiritualidade e autoconhecimento, aos 29 anos fui para São Paulo trabalhar em grandes agências de publicidade. Lá, a vida parecia perfeita, eu não tinha os problemas que eu vivia quando estava próximo dos pais. Havia, para o meu ego, um senso de liberdade física e emocional. Era mais fácil, calmo, era fácil receber amigos em casa. De fato eu acreditei nesse estilo de vida como sendo uma realidade que eu sempre sonhei.


Passaram alguns anos e eu comecei a ver que essa realidade não era tão real assim, porque muitas vezes, quando eu estava de férias, eu passava alguns dias com os meus pais e, adivinha? Os mesmos problemas voltavam, a mesma vergonha, raiva, a mesma vontade de fugir (e voltar para São Paulo).


Muitas vezes eu me questionava, porque eu achava estranho me sentir em paz apenas sozinho. De fato, a distância não “apagou” as minhas dores muito menos os meus traumas. Com isso, tive sede de buscar um conhecimento que trouxesse clareza sobre quem eu sou, sobre as minhas emoções, sobre as minhas relações que não eram boas. Eu carregava questionamentos sem respostas e um reconhecimento interno de que eu precisava de ajuda porque eu estava lutando para aceitar o fato de que eu não sabia me relacionar com os meus pais. A parte mais difícil era perceber que mesmo em outra cidade, longe dos pais, eu passei a viver as mesmas emoções diante de situações que me lembravam os meus pais. Por isso, foi duro admitir que eu não sabia lidar comigo mesmo e eu fugia das relações de conflitos e isso inclui amigos e situações no trabalho. Com isso, percebi que minha vida não estava fluindo em vários pontos importantes, pelo simples motivo de eu não saber lidar com as situações.


Cheguei a estudar budismo e Taoísmo por algum tempo, encontrei conhecimentos que me agregaram muito, mas eu ainda não me sentia conectado com a raiz de minhas adversidades. Eu já estava quase desistindo dessa busca, e foi aí que conheci a Vedanta, um conhecimento ancestral da Índia que fala exatamente sobre o EU. Alguns dizem que Vedanta é um sistema filosófico da Índia ou até mesmo a filosofia do Yoga, mas de fato, é apenas um conhecimento. Deixando de lado a ideia de tentar classificar o que não precisa ser classificado, Vedanta traz um conhecimento profundo que é traduzido como: O conhecimento do EU ou autoconhecimento, como é mais conhecido no ocidente.

A minha conexão com esse estudo foi implacável porque, ao receber os primeiros fragmentos do conhecimento nas aulas da turma regular de Vedanta, imediatamente tudo aquilo passara a fazer sentido para mim, minha sensação era como se um grande peso estivesse sendo tirado. Foi durante esse processo do estudo que passei a entender sobre os meus traumas, sobre as minhas dores e o duro fato de que eu fugia do desconforto emocional, de não ter que lidar com os meus problemas e isso gerava um distanciamento interno muito grande, que me fazia viver como uma pessoa em silêncio.


Um certo dia, em umas das aulas de Vedanta, fui confrontado com a importância do relacionamento com os pais. Havia tanta simplicidade e profundidade nas palavras que estavam sendo ditas que não havia como eu fugir, estando cada vez mais evidente que ao invés de amar, eu simplesmente odiava meus pais e até mesmo a minha vida.


A dor apertou e, naquele dia, tive um ensinamento muito importante, pois o texto de Vedanta dizia: "as emoções e traumas não pertencem ao tempo, elas podem não estar evidentes em determinados momentos de nossas vidas, mas quando nos deparamos com a situação que na verdade é um gatilho emocional, aquela emoção guardada surge novamente, ou seja, quando um trauma surge na infância e já passaram 20 anos, o trauma continua presente, podendo também, passar 30, 40 ou 50 anos, não importa! A emoção vai estar lá, fresquinha como se fosse ontem que o tal fato tivesse ocorrido pela primeira vez".


Esse ensinamento me fez parar um momento da minha vida para entrar em contato com a minha dor e entender que era hora de resolver. Assim que essa decisão foi tomada de uma forma muito sincera internamente, aconteceu algo muito interessante. Alguns dias depois, simplesmente perdi a vontade de trabalhar e morar em São Paulo e, para minha surpresa, na mesma semana recebi uma proposta de emprego em Maringá, cidade onde eu morava e também onde meus pais vivem até hoje.


Tudo aconteceu de forma natural, se assim posso dizer, então tomei a decisão para o que estava sendo apresentado para mim naquele momento, voltei para Maringá e para ser mais preciso, a morar com os meus pais. Não demorou muito para que todas as minhas emoções, sentimentos, dores e traumas voltassem, assim como foi dito no ensinamento. Alguns meses se passaram e eu ainda lutava contra tudo o que eu sentia, a minha mente ainda usava a fuga como muleta emocional, mas o momento de encarar a realidade já estava presente e a única forma de resolver era através da minha vulnerabilidade.


É preciso entender que vulnerabilidade não é dizer o que sente e culpar, julgar e apontar os defeitos da outra pessoa. Quando entramos em contato com as nossas emoções é importante entender que esse é um momento para falar apenas sobre você e suas emoções. Eu já havia entendido que expor os meus sentimentos era a minha missão para me conectar novamente, então respirei fundo e chamei meus pais, falei que eu precisava contar algo muito importante e era apenas sobre mim. Já reunidos, contei como eu me sentia magoado pela ausência e pela falta de amor, contei sobre a raiva e vergonha deles, enfim, falei tudo que havia dentro de mim e existe um detalhe muito importante: é preciso dizer tudo, independente da reação deles.


Havia mais uma coisa que estava faltando e só fui capaz de entender naquele dia. O que estava faltando para fechar essa conexão, era o perdão.


Quando passamos por processos traumáticos, precisamos entender o que está acontecendo, é simplesmente uma repetição dos fatos da nossa infância e adolescência. E, seguindo esse raciocínio, se vamos buscar o culpado, você vai perceber que o problema vai muito além do pai e da mãe, em algumas práticas chamamos de ancestralidade, porque qualquer pessoa que causa a dor em alguém, já sofreu alguma dor por uma outra pessoa. Isso não isenta os atos ruins de uma pessoa, mas entenda que essa pessoa já passou por dores e traumas e se você for pesquisar o culpado, vai se deparar com uma corrente que não tem fim, não tem um culpado definido, se é que você me entende. Tendo isso claro na minha mente, enfim fiz o meu pedido de perdão por tudo que eu fiz, por ter julgado e criado anos de distanciamento entre nós, e o perdão foi aceito. Vivemos normalmente hoje em dia, mas respeitando as questões que cada um carrega e eu, respeitando as minhas.


Se me permitem deixar aqui uma reflexão, eu gostaria de dizer que: De fato, não é possível amar a pessoa problemática que está diante de você, mas é possível sim, amar a pessoa por trás dos problemas, a pessoa que já passou por muitas dificuldades, humilhações, dores e traumas na vida e que por alguma razão, nunca tiveram a oportunidade de entrar em contato com as suas emoções, de expor sentimentos, de receber carinho de seus pais.


Nesta vida a única busca que faz sentido é a busca pelo seu crescimento, pela sua essência e entender que é preciso deixar de lado, de fora, o que não pertence a você.


A todo instante temos a oportunidade de agir de forma consciente e criar uma família melhor, mais humana e mais quente também. O entendimento vem lá de trás, mas a mudança começa a partir de você e, assim, poder entender também que só sente raiva quem ama.



​Ed Batista é Terapêuta e Professor de meditação, já empreendeu no mercado publicitário e atualmente ministra cursos de introdução a Vedanta e Comunicação Efetiva nos Relacionamentos, atuando também como diretor do Instituto Ganapati e criador do método VIVEKA, um percurso emocional terapêutico desenvolvido por meio do conhecimento ancestral da Índia e práticas de meditação profunda.




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