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Do alto ele se vê

Pedro Abrão, jovem maringaense prestes a ser o primeiro brasileiro a chegar ao topo das 10 maiores montanhas dos Andes, conta a trajetória que começou como aventura e virou um estilo de vida


TEXTO KAREN FACCIN FOTOS ACERVO PESSOAL PEDRO ABRÃO

Ele já viajou por 30 países, carregou a bagagem de uma vida na mochila e conheceu culturas e paisagens que renderiam um livro. O capítulo principal certamente seria aquele sobre o lugar mais inóspito por onde suas botinas já ousaram pisar. Uma viagem solo, em que nenhuma bússola, app de geolocalização ou agência de viagem puderam guiá-lo. Um lugar sem caminhos pavimentados ou atalhos. O capítulo seria intitulado: “A viagem para o interior de si mesmo”.


Há quem faça essa viagem sentado em um tapetinho de yoga ou em sessões de terapia; outros, para viajar para dentro, precisam primeiro ir para fora. Embarcam em verdadeiras expedições para os locais mais inacessíveis do planeta, como foi o caso do autor desta história. O maringaense Pedro Abrão, 28 anos, há dois anos empreendeu um projeto audacioso, ainda em andamento, de ser o primeiro brasileiro a alcançar o cume das 10 maiores montanhas dos Andes.


A atração pelo montanhismo surgiu de uma aventura totalmente instintiva – ou até mesmo irresponsável, diriam os capricornianos. Após um ano de intercambio na Irlanda, onde concluiu a faculdade de engenharia, teve a oportunidade de fazer dezenas de viagens com amigos para turistar e aproveitar as benesses que a Europa tinha a oferecer a um jovem de 23 anos. Mas as experiências vividas nas metrópoles, não preenchiam mais o coração daquele menino aventureiro que cresceu no sítio.


“As caminhadas mata adentro, acampamento com os irmãos, fogueira, colchão de ar, eu achava aquilo incrível... Essas experiências que temos quando criança são marcantes. Levamos elas para a vida adulta, e muitas vezes elas ficam lá, adormecidas e encobertas pelas atribulações. Mas se cuidarmos dela, alimentarmos, ela floresce. Esse sentimento floresceu em mim novamente quando subi minha primeira montanha, a mais alta da Irlanda. Eu não tinha conhecimento nenhum, equipamento nenhum, só tinha um desejo enorme de me conectar com a natureza e me joguei”, conta Abrão.


Longe de querer encorajar qualquer um a partir para uma aventura semelhante, Pedro conta que embarcou em sua primeira grande aventura sozinho, sem lenço e sem documento, apenas com uma velha botina Timberland e um gps – que era para, com sorte, poder voltar para casa. Em certos trechos dos 20 quilômetros até chegar no cume, a 1.100 metros de altitude, ele chegou a andar se rastejando, pensou que morreria ali. Fez um vídeo confessional para a família, com despedida, declarações póstumas, na esperança de que encontrassem a câmera e o paradeiro do rapaz que queria alcançar o topo da montanha, engatou uma quinta e foi parar direto no Céu.


Pedro teve sucesso ao alcançar o cume da Carrauntoohil, além de uma vista de tirar o folego, também encontrou lá uma parte de si mesmo, o Pedro de quem havia se afastado na adolescência e início da vida adulta. Lá encima fez um pacto com o Pedro do futuro, disse a ele que não se afastaria mais da natureza, daquela que mora dentro e fora dele. E quando desceu, viu que existiam alguns hábitos e desejos que já não cabiam mais, como uma roupa que encolheu pelo caminho. Levar um estilo de vida mais sustentável e em harmonia com a natureza foi uma das consequências desse despertar.


Doutorando em engenharia pela USP (Universidade Estadual de São Paulo) e pesquisador da mesma instituição, Pedro faz o planejamento das férias, do orçamento doméstico e até mesmo do carro que irá comprar com base nos planejamentos das viagens para as montanhas. Quando está próximo de uma viagem, ele vende o carro de passeio e mais econômico que roda pela cidade por um modelo 4x4 mais robusto para enfrentar os longos trechos acidentados até a base das montanhas. De eventos familiares, o romance com a namorada, aos prazos de entrega das pesquisas, tudo segue o ritmo ditado pelas expedições.


Maringá no topo


O Projeto 10+ Andes surgiu em 2018 quando Pedro decidiu oficializar para si mesmo que a expressão “fugir para as montanhas” viraria bordão dali pra frente. Morador de São Paulo capital desde 2016, a Serra da Mantiqueira é o “quintal de casa” do jovem e sua principal escola para ganhar resistência e resiliência para enfrentar as maiores altitudes e distâncias dos Andes. Mas antes disso, quando ainda morava na cidade Natal, Maringá, Pedro encontrou sua “turma” no Abrigo da Gua, onde aprendeu as noções básicas de montanhismo e também fez amigos que o incentivaram nessa empreitada. Foi pensando em honrar a cidade em que nasceu e que também lhe impulsionou a seguir no esporte que Pedro não mede esforços para carregar em sua mochila – sempre o mais compacta possível – uma bandeira de Maringá para fazer a tradicional foto no cume. No total, a bandeira maringaense já acenou do alto de sete, das dez mais altas divididas entre o Chile e Argentina: Aconcágua, Ojos del Salado, Monte Pissis, Bonete Chico, Tres Cruces Sur, Mercedario, Llullaillaco. E ainda faltam as três: Huascaran Sur (Peru), Huascaran Norte (Peru) e Walter Penck, que Pedro planeja completar até 2021, se os bons ventos afastarem a pandemia o quanto antes.


Se Pedro não vai até a montanha...


E mesmo com assuntos tão elevados, é mesmo difícil não citar da tal Covid-19, ainda mais diante de um montanhista que está afastado de seu habitat natural desde fevereiro. Apesar da distância, Abrão conta que carrega consigo o espírito da montanha para enfrentar esse momento de adversidades imposto pela pandemia.


“Nas montanhas você tem que agir com determinação, pensamento positivo e manter o foco de que as adversidades vão passar, que é só um período, não dura para sempre. Essa experiência do esporte me ajuda a não entrar numa paranoia e criar um ambiente pior do que este que já estamos passando. Afinal, o montanhismo é resiliência: posso estar passando frio e fome agora, mas acredito que amanhã vou estar quente e comer alguma coisa gostosa”, relata.


“Quando eu volto de uma expedição dou ainda mais valor a tudo o que tenho: desde água à vontade, comida e uma cama quente para dormir. Quando sentimos na pele os contrastes, tudo fica mais valioso. Após a pandemia, muitos detalhes do dia a dia não passarão mais batidos”.


O silêncio da travessia


Há trechos nos Andes sem vestígios de civilização ou de qualquer obra criada pelo homem num raio de 300 quilômetros. A vastidão e o silêncio se tornam um convite para a meditação ativa e a auto-observação. A cada passo uma respiração, os olhos se inclinam para cima, contemplam e agradecem. Um sentimento de pertencimento toma conta de Pedro. “Quando estou na natureza, lembro que não preciso de mais nada. Não consigo descrever bem, é uma liberdade muito grande de você estar envolvido em um lugar tão primitivo, mas que te preenche por completo. Sinto que faço parte do todo”, explica.


Mas nem só de ascensão vive um montanhista. Na eminência de um grande perigo, uma tempestade ou um trecho em que a neve cobre o corpo todo até a altura do peito como areia movediça, Pedro conta que repete o Pai Nosso como um mantra, estratégia que o ajuda a passar pelos desafios com equanimidade. Além da reza, Pedro atribuí à dieta vegetariana a qualidade de sentir-se mais leve, menos estressado e com mais clareza mental.


O insight sobre uma alimentação mais equilibrada para ele veio por meio do contato com as montanhas. Para ele, comer carne era o oposto de preservar a natureza. “A pecuária tem grande impacto no meio ambiente, desmatamento, emissão de gases do efeito estufa”. As pesquisas do mestrado e doutorado sobre “Metodologia para avaliar a ecoeficiência de cimentos também influenciaram. “Eu não posso estar trabalhando e estudando sobre diminuir os impactos da indústria da constrição civil e estar fomentando uma indústria tão prejudicial para o planeta, que é a pecuária. Estar em equilíbrio com a natureza para mim é poder olhar para as paisagens e saber que estou contribuindo para que elas se preservem para as próximas gerações.”


















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