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Ansiedade na infância: como identificar e ajudar os pequenos

por BRENDA CARAMASCHI


FOTO JEFFERSON OHARA


Você consegue se lembrar como se sentia em seu primeiro dia de aula? O coração batendo forte, você chegando a um lugar novo, soltando a mão da sua mãe e encontrando uma porção de crianças e professoras que você nunca tinha visto antes, entrando para sala de aula sem saber ao certo quando é que poderia voltar a encontrar com seus pais, na sua casa, cercado por seus brinquedos e por tudo o que lhe era familiar…


Se a lembrança parece distante demais, basta ir para a frente de uma escola no início do ano letivo e ver a cena se repetir com diferentes crianças. A garantia é visualizar muitas crises de choro desesperado e um aperto no peito tanto entre os pequenos quanto entre as mães e pais que se despedem. Tudo o que é novo gera ansiedade. E quando o desafio é vencido, a inquietude dá lugar ao prazer.


Esse exemplo é apenas uma das muitas adversidades que ajudam a criança a se desenvolver ao longo da vida, desencadeando uma série de sentimentos - e que se renovam, trazendo novos desafios durante toda a nossa vida adulta. A busca por aceitação social na escola vira a convivência com os colegas de trabalho e a expectativa por aquela promoção na carreira; a vontade de aprender a andar de bicicleta dá lugar à vontade de comprar um carro novo; a insegurança ao perceber que não sabe amarrar os próprio tênis lembra o sentimento que temos ao iniciar um novo curso e ver que ainda não temos domínio sobre aquele conhecimento.


A ansiedade faz parte da vida de todas as pessoas e é a reação emocional esperada diante de diversas situações. E nem toda ansiedade é negativa, afinal, aquela expectativa de perguntar todo dia quanto tempo falta para o aniversário chegar, se a casa da vovó ainda está muito longe ou se já está no dia de fazer a mala para a viagem das férias demonstra entusiasmo, boas expectativas, um friozinho na barriga, mas que não vem acompanhado de maiores sintomas.


Essa sensação passa a ser um problema quando causa sofrimento e um impacto funcional no dia a dia, impedindo a criança de realizar tarefas simples, como dormir, brincar com um amigo ou ir à escola. É normal sentirmos medo e preocupações de algum tipo, mas se essas preocupações vierem acompanhadas de pensamentos ruins e catastróficos, devemos ficar atentos. Quando os medos geram sintomas físicos e levam a desistências frequentes, podemos estar diante de um quadro de ansiedade patológica. E se engana quem pensa que isso é problema de adulto.


Se o seu filho apresenta um quadro ansioso ou uma preocupação desproporcional aos estímulos é provável que ele sofra de algum tipo de transtorno de ansiedade - e ele pode fazer parte de uma estatística crescente. Cerca de 10% da população infanto-juvenil sofre de algum quadro de ansiedade, em maior ou menor grau. Quem diz isso é o Programa de Transtorno de Ansiedade na infância e adolescência (PROTAIA), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Pode ser difícil detectar a doença justamente porque ela apresenta diferentes sinais, como mudança de hábitos, fobias, isolamento social, hiperatividade, impaciência, nervosismo, estado de constante vigilância, desenvolvimento de tiques… Os indícios de que nossos filhos estão sofrendo com algum transtorno aparecem no comportamento e é preciso observar a criança com atenção para, o quanto antes, encontrar meios para melhorar a saúde mental das crianças.


Na criança ansiosa, assim como nos adultos, a sensação física é de estar diante de algo muito perigoso: o corpo se prepara para lutar ou para fugir, e os sintomas físicos aparecem, com dores no estômago, dificuldade para respirar, taquicardia, dores de cabeça, enjoos e tremores nos pés e nas mãos.


Na infância o cérebro está em formação e não tem a maturidade necessária para entender o que está acontecendo. É importante ficar atento aos sinais para que a situação não se agrave.


Principais sintomas da ansiedade infantil

Segundo a psicóloga Ghyslene Rodrigues, os primeiros sinais que podem aparecer no comportamento indicando a necessidade de uma avaliação com um profissional são o excesso de preocupações e medo. “O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) se manifesta com alguns sintomas muito marcantes. O primeiro é a preocupação excessiva. A criança que tem TAG apresenta várias inseguranças: medo de ficar sozinha, de dormir sozinha, de que aconteça alguma coisa com a mãe enquanto ela estiver na escola, ansiedade de separação, dificuldades de fazer provas, medo de os amiguinhos não gostarem mais dela…”.


A psicóloga afirma ainda que algumas crianças ansiosas podem desenvolver outros transtornos em função da ansiedade. “É normal as pessoas se preocuparem, mas quem tem o transtorno de ansiedade generalizada tem uma preocupação que não larga do pé, e não tem o que você fale para a criança que faça ela enfrentar esses medos. Esse é um dos primeiros sintomas que aparecem e depois ela pode desenvolver outros quadros, como problemas psicossomáticos pela alta produção de cortisol em função do nível elevado de estresse, transtornos alimentares, distúrbios do sono, pânicos noturnos e algumas crianças ansiosas podem desenvolver Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)”.


A pandemia e os quadros de ansiedade infantil

Durante os anos de pandemia da Covid-19, a saúde mental e a rotina foram drasticamente abaladas - as nossas e a das crianças. Um imenso tempo livre deu lugar aos compromissos extracurriculares, as telas substituíram a sala de aula, as dores e incertezas que os adultos viviam estavam ainda mais perto delas, o tempo todo dentro de casa. Tudo ao alcance de um clique ou de um comando de voz.


Foi durante esse período que T. D. P recebeu o diagnóstico de que um dos filhos, de 9 anos, sofria com Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). O lockdown trouxe características ansiosas para os dois filhos. “Foi uma questão muito difícil de resolver. O transtorno se agravou e gerou ansiedade, medo de dormir na própria cama, perda da independência. Meu filho mais novo teve transtornos comportamentais bem intensos, com agressividade. Quando a babá ia embora, ele não conseguia compreender que ela estava indo, mas iria voltar, achava que ela o estava abandonando. Já a mais velha desenvolveu compulsão alimentar”.


As mudanças de comportamento a fizeram procurar ajuda profissional. Os filhos começaram a fazer terapia com uma psicóloga e tiveram auxílio de um médico psiquiatra. A prática esportiva também fez diferença no tratamento. “Eles começaram a fazer hipismo e foi muito bom para baixar a ansiedade. A yoga também ajudou”.


O papel dos pais

Os pais são os principais exemplos na vida dos pequenos e o apoio familiar é fundamental na hora de ajudá-los a se desenvolver. A maneira como cuidamos (ou deixamos de cuidar) da nossa própria saúde mental pode influenciar nossos filhos. Inclusive, tanto por características do ambiente em que são criados quanto pela herança biológica, a ansiedade dos pais tem influência crucial na saúde dos filhos.


A psicóloga Ghyslene Rodrigues afirma que existe uma propensão genética para desenvolver ansiedade. “Geralmente a criança tem um pai, uma mãe ou ambos que tem ansiedade também. Sem contar que adultos que são fóbicos acabam criando filhos fóbicos. O pai e a mãe são inseguros e têm medo, passam isso para a criança por modelagem. A gente avalia se a criança tem o transtorno de ansiedade ou se está copiando um padrão de comportamento que ela vê no ambiente”. A superproteção também pode fazer com que o quadro se agrave. “A esquiva aumenta o medo e o enfrentamento diminui, por isso também fazemos a orientação parental para que os pais saibam como se conduzir diante dessas necessidades que a criança apresenta”, diz.


É muito comum que os pais, ao levarem a criança para tratamento, percebam que apresentavam os mesmos sintomas na infância ou adolescência, mas na época essas questões não foram investigadas, em alguns casos porque os pais achavam que era “frescura”. “O profissional pode, inclusive, descobrir que quem precisa de tratamento não é a criança, mas os pais”, relata a psicóloga.


A agenda lotada, a vida corrida e a tecnologia sempre disponível tornaram a paciência uma qualidade escassa. E muitas vezes nossos hábitos ajudam a tornar nossos filhos ainda mais ansiosos. Hoje as crianças não precisam nem ao menos aguardar seu desenho favorito passar na televisão, mas podem assisti-lo em qualquer plataforma, na hora que quiserem, no lugar que estiverem. Segundo a psicopedagoga especialista em neuropsicopedagogia Josi Cremonezi, “é uma geração que tem pressa, que quer tudo pronto e quanto mais fácil, melhor. É uma geração que tem trazido muitas consequências relacionais, que está trazendo adolescentes deficitários em suas emoções porque não sabem lidar com suas frustrações e querem as coisas do jeito deles, na hora que eles querem. Isso traz prejuízos emocionais”.


A psicóloga Ghyslene Rodrigues destaca que a ansiedade infantil sempre existiu, mas o excesso de estímulos oferecidos por celulares e tablets sempre ao alcance das pequeninas mãos pode agravar a situação. Usadas com frequência para silenciar e distrair as crianças, as telas podem ser extremamente prejudiciais. “A criança precisa desenvolver as funções executivas e elas se desenvolvem com brinquedos volumétricos. Brincar, jogar na tela, não serve para nada, não traz ganho nenhum. Você pode ter acesso a conhecimento e à informação, mas é extremamente prejudicial, inclusive para crianças com TDAH. O uso de telas não é proibido, mas deve ser moderado pelos pais”, afirma.


A profissional também ressalta que ansiedade e impaciência são coisas diferentes. “A impaciência é a pressa para que cheguem as coisas, principalmente as boas, logo. E a ansiedade está sempre ligada ao pensamento negativo, a uma antecipação catastrófica, a uma preocupação de que alguma coisa muito ruim aconteça e ela não tenha recurso emocional para resolver. A criança que quer ganhar o presente antecipadamente, não tem paciência para esperar em uma fila, não tem ansiedade, mas impaciência. A criança ansiosa é aquela que fica preocupada e pensa: ‘e se chover no dia do meu aniversário? E se ninguém levar presente? E se não der certo?’”.

Trabalhar em conjunto com as crianças para superar as dificuldades é essencial e isso envolve explicar a necessidade da espera e ensinar brincadeiras que não incluam tecnologia para que se distraiam. Os familiares devem dar valor para os sentimentos da criança, demonstrando acolhimento, e incentivá-la a praticar atividades prazerosas e relaxantes.


Como controlar e tratar a ansiedade infantil?

A ansiedade infantil ocorre, muitas vezes, por dificuldade de expressar sentimentos e emoções.


Diante dos comportamentos diferenciados que os filhos apresentam quando têm problemas de ansiedade, é dos pais ou tutores o importante papel de estabilizar a criança emocionalmente e algumas atitudes são importantes quando uma crise de ansiedade aparece, entre elas:


• Validar as emoções e/ou sentimentos dos pequenos, procurando entender os motivos, mesmo que eles pareçam não fazer sentido para você;

• Fazer exercícios de respiração para a criança copiar;

• Demonstrar o seu apoio e as formas como você pode ajudar a criança a superar os desafios;

• Lembrar-se que gritar ou obrigar a criança a fazer algo só a deixa ainda mais ansiosa e que pode ser difícil para ela entender argumentos lógicos, por isso, não basta apenas explicar que a situação que ela imaginou é pouco provável;

• Ter um cantinho da tranquilidade, com almofadas, cobertores, objetos ou brinquedos preferidos, que seja confortável e agradável. Se necessário, ficar com ela nesse espaço. Mas também ensinar que esse é um lugar seguro para onde ela pode ir quando sentir que precisa.


A psicopedagoga especialista em neuropsicopedagogia Josi Cremonezi dá algumas dicas. “Crie uma rotina leve, gostosa, agradável. Leia com seu filho e converse sobre o que foi lido. Sente com ele, dê um tempo de qualidade. Brinque com seu filho e leve para fazer atividade física. A dopamina vai trazer a sensação de bem-estar e vai fazer a sensação de ansiedade diminuir. Crie, jogue, pinte, cante, realize atividades manuais para estimular o foco atencional. Dormir cedo também é importante, porque a criança desenvolve todos os estímulos neurais que só ocorrem durante o sono”.


Ela ressalta ainda que uma alimentação mais rica em alimentos naturais e com menos estimulantes, como refrigerantes e cafeína, pode fazer muita diferença. “Quando a gente organiza essa rotina, toda a família sai ganhando. A mudança de rotina traz um ambiente mais calmo e, aos poucos, a criança vai desenvolvendo sua autorregulação e através de um trabalho direcionado terapêutico e familiar, juntamente com a escola, vai desenvolvendo ferramentas que vão auxiliá-la”.


Todas essas atitudes são válidas, mas é muito importante procurar um psicólogo para fazer uma avaliação completa da condição da criança. Ao notar que a ansiedade está comprometendo o desempenho escolar ou os relacionamentos sociais do pequeno e que ele tem reagido de um modo diferente do esperado para a sua idade, é o momento de procurar um especialista para confirmar – ou não – o diagnóstico.


A primeira indicação é o acompanhamento com psicólogo na linha da Terapia Cognitivo-Comportamental. Essa linha parte do princípio de que é possível modificar um pensamento sobre um fato e, com isso, passar a ter uma visão mais positiva. Em alguns casos, o uso de medicamentos também é necessário e a medicação adequada será orientada pelo neuropediatra ou psiquiatra depois de uma análise cuidadosa.


Mas atenção! Evite rotular o seu filho, aluno ou qualquer pessoa com algum tipo de transtorno que esteja sob os seus cuidados. O diagnóstico só pode ser emitido depois de verificada a recorrência dos episódios de ansiedade dentro de um determinado período e depois de um acompanhamento profissional multidisciplinar. “É um processo moroso, mas que não pode ser feito de qualquer jeito, afinal de contas estamos tratando do desenvolvimento psíquico e cognitivo”, alerta a psicopedagoga.


É importante ressaltar que quando não tratada, a ansiedade pode gerar consequências negativas e prejudicar a rotina, o desenvolvimento e o futuro da criança. Sem o tratamento, o prognóstico piora muito. Na medida em que a criança evita situações por causa dos medos, eles só vão aumentando. Estudos mostram que crianças com transtorno de ansiedade têm maior risco de depressão e de desenvolver vícios durante a adolescência e fase adulta. Ansiedade não é frescura e quanto antes os sintomas forem identificados e o tratamento iniciado, melhores os resultados.




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