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A Trancoso platônica: relato de uma viagem de volta para casa

Destino no sul da Bahia reúne natureza, cultura e calmaria para curtir o luxo da simplicidade na baixa temporada


Texto Karen Faccin fotos acervo pessoal

Se fui para Nova York ou para as Maldivas, pouco importa. Ao voltar o clichê se repete junto com aquele suspiro: “Como é bom me sentir de novo em casa”. Mas na viagem para Trancoso o caminho foi inverso e deu lugar a um sentimento que é preciso mesmo dar uma viajada para explicar. Imagino que há uns 2.500 anos, sentados na sombra de uma amendoeira à beira mar, Platão e Sócrates filosofavam, entre um gole de água de coco e outro, que as coisas naturalmente belas trazem a sensação de reminiscência, o popular deja vú. É como se aquele exato ponto de harmonia que há na beleza, fosse um portal de volta para casa, para o lugar ao qual realmente pertencemos.


Na prática, quando pisei em Trancoso, senti como se estivesse de volta depois de uma vida, duas, três, quem sabe. É como se estivesse retornando à raiz da minha natureza, da minha ancestralidade, do brasil-brasileiro onde a esquadra de Pedro Alvares Cabral desembarcou de mala e cuia pela primeira vez em 1.500. Teria Cabral, ao avistar Trancoso das caravelas, tido aquela mesma sensação platônica de reminiscência? Ou foi a voz do futuro narrada pela assistente do Google Maps que soprou em seu ouvido “Você chegou ao seu destino”? Who knows...


O fato é que a harmonia de Trancoso encanta turistas e desbravadores antes mesmo do Brasil assim ser batizado. Lá tudo parece estar exatamente aonde deveria estar, até mesmo suas imperfeições. O clima quente, a coreografia das ondas, o toque do vento, a saturação das cores, a posição do sol, o dendê da moqueca, as gravuras que as patas dos caranguejos imprimem no mangue.

Depois da trupe de Cabral, mais tarde, em 1970, os hippies redescobriram o vilarejo que ainda era só um conjunto de casinhas contornando um grande gramado, chamado pelos nativos de “Quadrado”, que abrem alas a uma simpática igrejinha ao fundo com vista panorâmica para o mar.


Junto com os hippies, a fama de Trancoso começou a se espalhar, atraindo turistas mundo afora – belgas, holandeses, franceses que parecem ter encontrado a versão baiana de todo seu je ne sais quoi. Hoje, com sua vocação turística reconhecida internacionalmente, Trancoso aprendeu os segredos da hospitalidade e convida os turistas a experienciar um luxo que se vive descalço. Um lugar onde é preciso ter o olhar apurado para reconhecer a exuberância que existe na simplicidade.


A arquitetura e decór lançam mão de elementos que dialogam com a paisagem e preservam a cultura local, seja em peças feitas à mão por artesãos nativos – que vão desde pescadores a índios pataxós – às antiguidades impregnadas de história e autenticidade. As casinhas coloridas e cheias da alma de personagens icônicos que habitaram o lugar, como seo João Alves, o casal Zé e Zilda e o festeiro seo Pedrinho, atualmente abrigam restaurantes renomados, marcas de moda e design e hotéis boutique, a exemplo do “Uxuá Casa, Hotel & Spa”, fundado pelo designer Wilbert Das – a frente da direção criativa da Diesel por 20 anos.


De repente Trancoso


Trancoso surgiu numa sexta-feira “daquelas”. Estresse e excesso de trabalho acumulados e uma tensão pré-pandemia que já rolava no ar. Era véspera do nosso aniversário de cinco anos de casamento, tínhamos acabado de cancelar uma viagem de comemoração para Itália e a incerteza de quando poderíamos viajar novamente nos fez agir por impulso. Uma viagem relâmpago! O intervalo entre a compra das passagens e o momento em que coloquei o pé na areia da praia foi de 24 horas. Eu digitei no Google “praia brasileira que não chove em março”. Trancoso apareceu no top 5 da lista de destinos nacionais que prometia não ser embalado pelas tais “águas de março”.


Dito e feito. Chegamos lá com sol a pino, um céu azul, sem nuvens ou ressentimentos para desabar. À noite, lua cheia, transbordando, iluminou o jantar das bodas no restaurante Silvana & Cia, localizado no Quadrado, indicação da amiga Ninha Chiozinni, que por sorte encontramos no aeroporto instantes antes de embarcar. Drinks com borogodó e uma moqueca de banana-da-terra pra peixe nenhum botar defeito fizeram nossa noite.


Com a reserva feita às pressas, quem nos recebeu de portas abertas e muito axé foi o francês Mark, com anos de praia pela Cotê d’Azur, também decidiu chamar Trancoso de lar, ou melhor, de Le Refuge: a pousada com a localização que é o crème de la crème, no meio do caminho entre a Praia dos Coqueiros e a poucos passos do Quadrado. Com bom custo-benefício, a pousada tem charme e conforto na medida.


Os sete dias seguintes foram de contemplação e reconexão com a nossa própria natureza e a de todo o entorno. Acordávamos às 5 horas para assistir o espetáculo do nascer do sol, meditar e praticar yoga na areia. Que vibe! O dia seguia com caminhadas pela faixa de areia das praias de Trancoso. São 24 quilômetros de costa azul turquesa sob falésias imponentes e ao lado da mata atlântica e de manguezais. Os destaques vão para a tranquila Rio da Barra, onde o oceano Atlântico e o Rio da Barra se encontram; Coqueiros, com seus recifes de corais; e a paradisíaca Itapororoca, escolhida para sediar o novo empreendimento do Fasano, com projeto do gênio Isay Weinfeld.


Para recarregar as energias à beira mar, o Bar Uxuá era sempre a melhor pedida, com cozinha baiana autêntica e muitas opções plant based, sem contar o espaço original: um antigo bar de pescador reformado, sustentável e bacana demais. No final do dia, um passeio pelo Quadrado, uma mesa debaixo de uma amendoeira, Caetano Veloso, um drinque tropical e aquele desejo secreto de ficar pra sempre ali, no lugar em que me sinto em casa.



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